segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

RIO POSTO, RIO MORTO

Foto1: Tirada por Ricardo Terra - Professor Mestrado Engenharia Ambiental Cefet Campos
Foto2: Professor Aristides Soffiati e seu livro "O Manguezal na História e na Cultura do Brasil"
Acompanhei todos os grandes acidentes que afetaram a bacia do Rio Paraíba do Sul. O mais antigo de que tenho notícia ocorreu em 1982, com o derramamento de metais pesados pela indústria Paraibuna Metais, em Juiz de Fora. A mancha desceu pelo Rio Paraibuna e entrou no Paraíba do Sul. Ela não era visível nem mortal em curto prazo. O abastecimento d’água foi cortado por cinco dias, e diversos setores da sociedade campista se mobilizaram numa assembléia permanente, com reuniões diárias, atos públicos e passeatas. Até o bispo de Campos, o finado D. Navarro, esteve presente a uma reunião do fórum. Foi por ocasião deste acidente que o então governador Chagas Freitas bebeu água da estação de tratamento da CEDAE e banhou-se no rio, ganhando fotos nas primeiras páginas de jornal, inclusive do exterior. Ele mesmo criou uma comissão para escolher uma nova fonte de abastecimento para cidade, da qual participei. A captação continuou no Paraíba do Sul. Nem sequer um sistema de emergência foi criado, caso houvesse outra crise. Este episódio, tão cidadão, caiu no mais profundo esquecimento. Fico surpreso com tamanha ignorância. Em 1988, uma fundição despejou 75 mil litros de ascarel no rio, óleo tóxico proibido desde 1981 por portaria federal, mas usado por empresas públicas como a Petrobras, Furnas e Light. A população, talvez desencantada com o resultado do grupo de trabalho de 1982, demonstrou completa apatia. Em 2002, como se nada tivesse acontecido antes, em termos de proteção da bacia - e não aconteceu mesmo -, a empresa mineira Cataguazes Celulose despejou milhões de litros de lixívia negra no Rio Pomba e, desse, para o Paraíba do Sul. Em 2006, veio novamente de Minas Gerais, outro derramamento. Desta vez, coube à Rio Pomba Mineradora lançar resíduos de bauxita pelo Rio Muriaé, que também chegaram ao final da bacia do Paraíba do Sul. Como se não bastasse, esta mesma empresa, em janeiro de 2007, voltou a descarregar bauxita e lama no Muriaé. A agressão só não se tornou mais grave porque a grande cheia de 2007 ajudou a diluir a carga poluente. Mas a população mostrou-se apática. O grande humorista Angeli publicou recentemente uma charge na "Folha de São Paulo" em que um feitor surra um escravo e lhe diz: "Relaxe! Daqui uns dois ou três séculos isso sara!" Desenho e texto são polissêmicos, mas aplicam-se bem ao povo do Brasil. Parece que nos acostumamos à rotina dos acidentes. Voltamos ao individualismo, ao comodismo e ao conformismo, sacudidos temporariamente em 1982. Novamente, agora, o Rio Paraíba do Sul sofre uma outra agressão. Ela deriva do derramamento de endosulfan, organoclorado usado na fabricação de inseticida, pela empresa Servatis. Todos os grandes acidentes anteriores vieram de Minas Gerais: Juiz de Fora, Cataguazes e Miraí. Parece que o Estado do Rio ficou com inveja do estado vizinho e lançou o veneno em Resende. Pelos efeitos, este foi o maior e o mais agudo de todos os atentados. Os metais pesados causam problemas em médio e curto prazos. A lixívia negra mata os peixes, que vivem do oxigênio dissolvido roubado pelo processo de oxidação. O endosulfan é veneno com efeitos imediatos. Mata peixes e outros organismos aquáticos e não aquáticos que entram em contato direto com ele. Avançamos institucional-mente com o Comitê da Bacia do Rio Paraíba do Sul e com divisão do Estado do Rio em 10 Regiões Hidrográficas. Na prática, porém, pouco ou nada mudou. Os órgãos estaduais de ambiente anunciam logo multas e processos judiciais, reduzindo a dimensão do perigo. A Secretária Estadual do Ambiente minimizou o problema, declarando que a mancha não chegaria ao trecho final do rio, levando-se em conta a quantidade do veneno derramado, a distância entre Resende e a foz e o grande volume de água no Paraíba devido às chuvas. Acreditei nela e repeti sua confiança na mídia local. Tanto faz. A apatia da população aumentou. Tenho sido muito procurado nestes dias por pessoas que desejam saber apenas se podem beber água de poço e tomar banho. Só lhes interessa o que acontece no seu quintal. Apenas os pescadores, diretamente afetados, protestam. No mais, o policial chega depois do crime e multa o culpado. O Ministério Público aciona-o judicialmente, até que aconteça um novo crime. Os governantes e os empresários falam muito em desenvolvimento sustentável e no princípio da precaução. Este princípio implica uma mudança radical do sistema produtivo para suprimir os riscos. Acaso esta mudança está em curso? Claro que não. Nosso sistema cresce progressivamente em termos de riscos. Nem sequer o princípio da prevenção, que procura conter os riscos, está sendo observado. Esperemos passivamente o próximo atentado.
Fonte: Jornal Folha da Manhã - Complexus - 31/11/08
Aristides Soffiati - soffiati@fmanha.com.br

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