Foto: Andre Pinto usando as técnicas das tradições orais do povo atafonense. Funciona? (Arquivo pessoal)
Atafona: onde a areia conta uma história de radioatividade, natureza e espiritualidade
Turismo além do sol e do mar
Quem visita a praia de Atafona, em São João da Barra, encontra muito mais do que uma paisagem marcada pelo encontro do rio Paraíba do Sul com o Oceano Atlântico. Sob os pés dos visitantes existe também uma curiosidade geológica que ajuda a tornar esse trecho do litoral sanjoanense especialmente singular: a presença de areia monazítica, rica em minerais pesados que podem conter elementos naturalmente radioativos, especialmente o tório.
A monazita é um mineral que concentra elementos de terras raras e tório. Quando esses minerais se acumulam na areia da praia, ocorre uma elevação da radioatividade natural do ambiente. Não se trata de radioatividade artificial ou de contaminação provocada pelo homem: é um fenômeno natural relacionado à composição mineralógica da areia.
Em Atafona, essa característica já despertou o interesse científico. Um estudo realizado na praia em 2023, publicado nos Anais da Semana Científica da Faculdade de Medicina de Campos, utilizou um contador Geiger e identificou radiação ionizante em determinadas amostras de areia. Em um dos pontos analisados, foram registrados valores de 1,34 μSv/h e 2,78 μSv/h, dependendo do volume da amostra. O trabalho também identificou a presença de tório e recomendou a continuidade das pesquisas e do monitoramento da radioatividade na praia.
Radioatividade: perigo ou curiosidade natural?
A palavra "radioatividade" pode causar preocupação, mas ela precisa ser compreendida dentro de seu contexto. A radiação ionizante existe naturalmente em diversos ambientes do planeta, proveniente do solo, das rochas, dos minerais, do ar e até do espaço.
As areias monazíticas de algumas praias brasileiras são conhecidas justamente por apresentarem níveis elevados de radioatividade natural. Estudos realizados em diferentes regiões do litoral brasileiro demonstram que minerais como monazita podem concentrar tório, urânio e outros radionuclídeos naturais.
Por isso, não é correto afirmar que a areia monazítica de Atafona "cura doenças" ou que sua radioatividade seja comprovadamente benéfica à saúde. A ciência ainda não estabeleceu essa conclusão.
Existe, entretanto, uma interessante linha de pesquisa sobre regiões de alta radioatividade natural. Um estudo publicado no World Journal of Nuclear Medicine comparou indicadores de saúde de municípios brasileiros, incluindo Guarapari, região conhecida pela presença de areias monazíticas, e não encontrou aumento de câncer ou dano germinativo em relação aos grupos analisados. Os próprios autores, porém, discutem seus resultados no contexto da exposição natural e das teorias sobre os efeitos da radiação, não significando que a exposição à areia radioativa deva ser considerada tratamento médico.
Assim, o verdadeiro benefício turístico de Atafona está também na oportunidade de transformar esse fenômeno natural em conhecimento, aproximando o visitante da geologia, da física, da história e da ciência.
Atafona e a memória de Chico Xavier
Atafona guarda ainda uma dimensão que ultrapassa a geologia.
Em janeiro de 1967, o médium Francisco Cândido Xavier, Chico Xavier, passou cerca de dez dias na praia de Atafona, hospedado na casa de veraneio de Clóvis e Hilda Tavares. O episódio é relatado por Clóvis Tavares no livro Trinta Anos com Chico Xavier, que dedica um capítulo à temporada de Atafona.
Segundo esse relato, Chico ficou profundamente impressionado com a paisagem e encontrou naquele ambiente um período de descanso, tranquilidade e inspiração. Durante sua permanência, teria psicografado capítulos de “No Portal da Luz”, obra atribuída ao espírito Emmanuel, em meio à quietude do litoral sanjoanense.
Para o turismo cultural e de memória, esse episódio acrescenta uma camada especial à identidade de Atafona. A relação de Chico Xavier com o lugar pode ser apresentada como um registro da memória espiritual e cultural associada à praia, sem confundir essa experiência subjetiva com uma comprovação científica de alguma "energia espiritual" específica.
Um novo olhar para Atafona
É justamente nessa combinação que surge uma oportunidade para o geoturismo em São João da Barra.
Em Atafona, o visitante pode observar a paisagem costeira, compreender a dinâmica do rio Paraíba do Sul e do oceano, conhecer a história das areias monazíticas, descobrir o que é radioatividade natural e, ao mesmo tempo, entrar em contato com histórias culturais e espirituais que fazem parte da memória do lugar.
Atafona pode ser apresentada, portanto, como um verdadeiro laboratório natural a céu aberto, onde natureza, ciência, história, espiritualidade e turismo se encontram.
Mais do que uma praia de sol e mar, Atafona é um território onde a areia guarda minerais, a paisagem guarda histórias e a memória guarda personagens.
Conhecer Atafona é caminhar sobre uma paisagem que pode ser lida de muitas maneiras: pelos olhos do turista, pelo olhar da ciência e também pela sensibilidade de quem acredita que determinados lugares possuem uma energia especial.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores riquezas turísticas de São João da Barra: transformar aquilo que existe naturalmente no território em conhecimento, experiência e pertencimento
