sábado, 13 de setembro de 2008

HOMENAGEM AO ANTOLÓGICO AMBIENTALISTA E SAPATEIRO MANOEL BARRETO

NO MÊS DAS ÁRVORES (SETEMBRO), ANDRÉ PINTO TRAZ RELATO HISTÓRICO EM HOMENAGEM AO ANTOLÓGICO AMBIENTALISTA E POETA SANJOANENSE MANOEL BARRETO – “BARRETO SAPATEIRO”. Manoel Barreto, sanjoanense, foi um grande visionário da questão ambiental, tendo sido defensor da restinga e dos animais que neste bioma habitavam e das florestas em geral. Manoel Barreto questionava o costume dos antigos de sua época que atiravam pedras nas corujas buraqueiras que habitavam na Praça da Boa Morte em São João da Barra e outras crueldades. Imortalizou lindos poemas ambientais sobre o nosso manguezal e fauna, verdadeiras obras-primas!. Veja abaixo alguns poemas: O MANGUE Tabuleiro boiante, imaginário, Sombreado pr`um docel nidificado, Que o passaredo em canto terno e vário, O ambiente delicia perfumado. Fofo tapete negro, pontilhado, Oculta a orla em piscoso e manso aquário, Onde, ao fundo, o sol, rúbido, espelhado, Ladeia tremulante monstro sáurio. Fugaz miragem de crustáceos, viva, A vista interna foge e surge esquiva, Encantadoramente primorosa; Que se poeta a visse, em rima e glória, Trasladava-te, ó mangue, para a história... Berço de muita infância esplendorosa!... São João da Barra, 1942. AS ABELHAS Quando dealba os pálidos albores, Zumbindo, sussurrando, além, no prado, Deixando, à abelha mestra, entregue o alvado; Pousar vão, de mansinho, sobre as flores. Quando o suco das rosas têm libado E, jasmins, o néctar, multicores, Voltam depressa os bons trabalhadores Num eterno labor de povo alado. Era assim que a natura nos queria: Vivendo eternamente, em sociedade, Como os enxames vivem nas colméias. E, o homem, quando o favo surrupia Ante o assombro da coletividade, Só lhes bendiz adotando essas idéias. O CEDRO Era um frondoso cedro abandonado Em cujo ramo se encontrava um ninho. E cantava o ditoso passarinho, Saudando o seu amigo dedicado. Como as aves, também, têm negro fado!... Pois, alguém que passara no caminho Espedaçou o berço do bichinho Transbordando de dor o desgraçado. E chorava minado de desgosto, Na tristeza profunda d`um sol posto, Pedindo punição, se definhando... Algum tempo depois, naquela estrada, Em funéreo descante, a passarada Anunciava que o cedro ia murchando. Nos textos abaixo, Manoel Barreto, ou o conhecido “Barreto Sapateiro”, já demonstrava em 1944 a grande preocupação com o desenvolvimento da educação ambiental nas escolas de São João da Barra e do Brasil e mencionou também o início das obras do primeiro horto florestal de São João da Barra. Em 1946, Manoel Barreto parecia já advinhar que nos dias de hoje conviveríamos com os problemas das queimadas e já dava entendimento de que as florestas deveriam ter um plano de manejo adequado. Saudações verdes ao Manoel Barreto! VEJA AS ESPETACULARES MATÉRIAS FEITAS PELO IMORTAL POETA-AMBIENTALISTA SANJOANENSE MANOEL BARRETO – (BARRETO SAPATEIRO) SOBRE OS TEMAS: MENTALIDADE FLORETAL E O EXTERMÍNIO DAS FLORESTAS. MENTALIDADE FLORESTAL Parece exagero escrever “mentalidade florestal” como chave segura de defesa da floresta e do arvoredo em geral. E muitos acharão inaceitável ou fantasia, principalmente tendo em vista a mobilidade sempre em escala crescente dos moradores dos campos para as cidades mais próximas, em busca de melhor padrão de vida, atraídos pela revolução dos planos urbanísticos, que contrastam, chocantes, com a situação camponesa. Parece, mesmo, impraticável tal mentalidade nos municípios que não possuem florestas virgens, e se acham industrializados. No nosso, porém, que é essencialmente agrícola, e cujas reservas florestais são magníficas, admite-se a realidade de sua formação e, como decorrência, a solução do êxodo rural. Lançando um olhar pelo sertão (mata virgem bravia),um manancial copioso para o botânico e igual riqueza econômica para a região, encontramos inúmeros claros no manto vegetal produzido pelas derrubadas, seguidos dos processos empíricos de exploração de gleba, em detrimento da fitogeografia e, por conseqüência, acarretando um cortejo de males perfeitamente observados: combustão do solo, queda de densidade pluviométrica, prolongamento de verões e freqüência de secas que só encontrarão regularidade na quase impossível e dispendiosa irrigação artificial. Isso, na região dos tabuleiros, ao norte do Paraíba. Ao sul do rio, nas restingas arenosas, o sistema antiquado de coivara que segue as derrubadas, acinzentam cada vez mais os horizontes, imprimindo o tom original das caatingas bem refletido nos cactos e bromélias. A desoladora paisagem de flora do nordeste nas longas estiadas, tem a sua imagem esculpida nas adustas areias da restinga. Zonas outrora de mata luxuriante, densa e robusta, de solo firme e fértil, estão reduzidas a franco xerofilismo raquítico, o ante-amanhã do deserto. Há trechos saarizados já, cujas dunas serão difíceis de fixá-las com vegetais, lugares onde não cresce vegetação agressiva, e nos quais as areias soltas, sopradas pelas brisas constantes lembram erosões eólicas temíveis, pauperizantes. Os efeitos da última seca estão ainda bem visíveis. O serviço florestal municipal, incipiente e lacunoso, acusa a cifra de 55 por cento de alqueires de matas derrubadas este ano, para 950 pés de eucaliptos plantados no mesmo período, por conta de particulares. Nada mais surpreendente no sentido do desflorestamento. Essas ocorrências não são ocasionais, mas o produto de justificada deficiência da mentalidade florestal. Não há de ser proibindo as derrubadas em pleno ciclo da pecuária, multando ignorantes ou prendendo contraventores ou cantando hinos áou prendendo contraventores ou cantando hinos da pecuusa a cifra de 55 por cento de alqueires de matas derrubadas este ano, pa árvore, que atenuaremos o mal. Só quando adquirirmos a noção do papel desempenhado pela mata repetindo o conceito de Desfontaines, “Sem floresta, a terra seria quase inabitável aos homens”. Quando cada munícipe julgar a árvore parte integrante de sua vida, explorando-a sem, todavia, destruí-la, a flora não será mais degradada ao sabor dos inconscientes e das mãos criminosas. Mentalidade florestal! De onde sairá esta luz que nos iluminará a todos num só jato de sua emanação? Das escolas, naturalmente. Criaremos ao lado de cada escola rural um pequeno viveiro de mudas úteis nos reflorestamentos que, obedecendo á orientação do mestre ou mestra, será cuidado pelos alunos á guisa de entretenimento, animando-os com prelações botânicas. O lema dos trabalhos iniciais pode ser o que nos ensina proveitosamente o botânico Dr. A.J. Sampaio, “Plantar seja o que for, desde que útil”. Os resultados práticos imediatos seriam excelentes, e economicamente lucrativos para os educandos. Cada escolar plantaria no seu sítio um certo número de essências dos quais ele seria o “guarda”. A multiplicação desses viveiros seria, então, uma questão de querer fazer. E se atingíssemos a superprodução de mudas, recobriríamos com relativa facilidade os vazios arborigráficos das propriedades cujos donos de parcos recursos estão impossibilitados de assim fazer. Será fácil imaginar quantas inteligências não se destacariam, dedicando-se ao conhecimento dos nossos valores vegetais nativos e inexplorados. Mas o ponto de partida para essa iniciativa, será a criação do horto florestal. Felizmente, ele já está projetado pelo atual Prefeito de São João da Barra, Sr. Edeiweiss Nunes Ribeiro, e nesta cidade. A administração do horto determinará qual a espécie a experimentar em cada região e, sob o seu controle a expedição, cogitando da facilidade do transporte, etc, etc. Á primeira vista, parecerão utópicos estes rabiscos que aí vão, à mingua do tempo para dar uma bonita feição de tese, porém o futuro nos falará pelos algarismos dos fatos. São João da Barra, dezembro de 1944. Jornal “A Evolução”, ano XXI – São João da Barra, 24 de dezembro de 1944, número 21. MANOEL BARRETO DENUNCIA O EXTERMÍNIO DAS FLORESTAS NO JORNAL “A EVOLUÇÃO” DE FEVEREIRO DE 1946. O EXTERMÍNO DAS FLORESTAS É lamentável e digna de protesto a devastação desenfreada das florestas do município. O povo, ignorante do valor destas florestas, que são a ambição do estrangeiro que não cansa de admirar a nossa natureza opulenta, devasta, descuidoso ou ganancioso, a superfície da terra deixando a sua crosta nua, á invasão do matagal inútil, onde a natureza doentia se desmanda na palidez horrível de uma sentença fatal. O solo outrora abrigado por robustos troncos de sólidas florestas seculares, ninho de uma fauna maravilhosamente abundante, é hoje uma superfície rasa onde apenas medra a capoeira esparsa que asila a serpente daninha. O fogo vai destruindo tudo, e os homens devastando, com a falta de ordem que é comum em nosso país. Isso, apesar da existência do Serviço florestal, o próprio a confessar que só nos estados longínquos, onde a população é mais escassa, é que as florestas se conservam, medrosas da invasão desorientada, que não tardará a chegar. É muito justo que se descortine, porque o terreno em mata nenhum rendimento pode dar, mas que se descortine com ordem, para ser bem aproveitado o terreno, porque os terrenos novos são mais próprios para a cultura das lavouras. Mas esta chacina mais do que injusta que se leva a efeito entre nós por descuido ou por absurdo desejo de ver as nossas florestas extintas, é um absurdo. São João da Barra já tem muita terra velha que só se presta para pasto e, por isso, as matas deviam ser poupadas para este fim. Precisamos, para a economia de nossas florestas, de medidas enérgicas contra as queimadas, que trazem um dano enorme, e essas medidas só poderão ser tomadas pelo governo municipal, estabelecendo rigorosa vigilância. Mas, “cadê” vigilância municipal? Jornal “A Evolução” ano XXII, 21 de fevereiro de 1946, n.º 34. QUEM FOI MANOEL BARRETO GOMES DA SILVA? MANOEL BARRETO GOMES DA SILVA, fruto da união de José Gomes dos Santos e de Maria Gonçalves da Silva, nasceu em 16/10/1907, em São João da Barra. Este ilustre sanjoanense de estatura média, tinha cabelos pretos e olhos castanhos. Talentoso e de alma irriquieta, teve uma infância marcada por atos e atitudes de uma criança viva, inteligente e criativa. De família humilde, Manoel Barreto foi um autêntico autodidata. Sapateiro de profissão notabilizou-se, além da competência profissional, como escritor, poeta, jornalista e compositor, demonstrando sua versatilidade ainda como ator teatral. Fruto de uma inteligência privilegiada, foi autor de várias obras literárias, documentadas em original (poesias, peças teatrais, dicionário de língua portuguesa e do charadista). Emprestou a sua inteligência iluminada ao Jornal “A Evolução” do qual foi paginador e revisor, além de publicar inúmeros artigos. Compôs inolvidáveis marchas-rancho para o Clube Congos, do qual foi um dos fundadores, sendo a mais conhecida e cantada até os nossos dias a “Gargalhada”. Participou de várias peças teatrais, destacando-se na interpretação de Caifás, na peça “O Mártir do Calvário”. Como todo poeta, era imaginativo e brincalhão. Manoel Barreto não fugiu à regra: contam-se as dezenas de trovas que vez com os amigos a até com sua noiva. Ele próprio, espírito jovem, dava boas gargalhadas ao contá-las. Com relação ao seu casamento, que não era do gosto do pai da noiva, ao ser interrogado pelo Juiz Dr. Leopoldo Muylaert se aceitaria a noiva por livre e espontânea vontade respondeu não, causando aos presentes tremendo espanto. Ao ser interrogado pela segunda vez o Juiz perguntou se havia algum impedimento entre ambos ele respondeu que não. O Juiz irritado perguntou: o que está havendo, Sr. Manoel? Ele respondeu, nada. É só para chatear o meu sogro. Enquanto isso a noiva chorava. Sempre se mostrou inteligente e sagaz. Humanitário, quando alguns amigos caíam em desgraça ou adoeciam, dava-lhes a mão e até o seu próprio salário de vereador; acendia-lhe o entusiasmo. Era estimado por todos e temido por alguns. Foi na Década de 50, ao lado de Aloísio Faria, um dos vereadores de maior gabarito que os sanjoanenses tiveram. Prestou valioso serviço à vida pública como vereador (1947 a 1950). Foi autor do Projeto de doação de terrenos (1948) em Atafona. Após um ano do projeto aprovado foram construídas, em um ano, cerca de trezentas casas, gerando muitos empregos para os sanjoanenses. O autor do projeto se negou a separar um terreno para ele conforme indicação do prefeito da época, respondendo-lhe que se assim procedesse estaria legislando em causa própria. Foi professor político de muitos vereadores. Colaborou eficientemente, mais tarde, como assessor da Câmara Municipal, cargo que ocupava quando veio a falecer. Em 1932, quando foi fundado o Partido Comunista, em São João da Barra, exerceu o cargo de Secretário Geral. Por conta dos ideais comunistas foi preso em 1937 sendo transportado para Niterói em 1964 onde foi indiciado. Nesse episódio descobriu, no presidente da Câmara de São João da Barra, Pedro Fernandes seu maior amigo. Além de se dedicar à profissão de sapateiro, poeta, ator, escritor, compositor e político, foi um grande interessado pela agricultura, pois cultivava o plantio de mudas de eucalipto. Enviou inúmeras matérias sobre agricultura para o Boletim Geográfico do IBGE-Rio. Tal o valor dessa matéria, levou o diretor do IBGE-Rio, Anselmo Macieira, a se deslocar até São João da Barra para conhecer o escritor, causando medo a Manoel Barreto, pois pensou que se tratasse de um policial, porque na época havia repressão política. O diretor do IBGE ficou surpreso por encontrar um sapateiro e solicitou que o escritor lhe mostrasse a matéria escrita tornando-se amigos a ponto de convidá-lo para ir ao Rio de Janeiro. Em 1934 casou-se com Maria Moreira Pinto, nascendo dessa união cinco filhos: Senícia, Luiz, Manoel, Denícia e José. Ficou viúvo em 1951 e faleceu em 06/02/65 aos 57 anos de idade. Por Resolução n.º22/94, de 11/08/94, pelo vereador Adalberto Ribeiro Alves a rua General Polidoro passou a ser chamada de Rua Manoel Barreto Gomes da Silva. Manoel Barreto teve a publicação de suas poesias imortalizadas na obra póstuma “Poesias a ti, São João da Barra”, lançada por seus descendentes. Pesquisa: André Pinto (Acervo histórico de propriedade do dono do blog).

Um comentário:

cilea disse...

Caro André ;comentando com Franci/Zitinho, a respeito da materia por mim lida sobre a historia do sanjoanense Manoel Barreto, me solicitaram a possilibidade de tirar um copia, ou imprimir...face não terem computador.. Como não consegui imprimir, passo a bola para vc ok.. Quanto a foto tirada com o saudoso Joao Oscar e Jorge, nas aguas quentes, valeu a pena recordar.. muito bom mesmo.
Forte abraço. >> Cilea Castellar